domingo, 27 de junho de 2010

A Hard Day's Night

Acordar, por aqueles dias, passou a ser algo diferente. Ele na verdade nem se lembrava de quando tudo havia mudado. Não sabia o momento exato. Não sabia o dia exato. Mas sabia que um dia deixou de sentir o ardor nos olhos ao receber a luz do sol. Deixou de procurar, automaticamente, o relógio para descobrir que estava atrasado. Deixou de sentir o impulso de se levantar e tomar um banho rápido e gelado.

Por aqueles dias, acordar passou a ser algo mágico. Ele não sabia dizer exatamente quando começou a ser assim. Não o dia exato. Mas sabia que um dia passou a sentir um cheiro doce e um peso gostoso sobre o ombro. Passou a procurar por aqueles olhos que lhe brilhavam. Passou a sentir uma profunda necessidade de passar nem que fosse mais poucos segundos na cama ao lado dela.

Por aqueles dias, acordar era algo especial. Ele não sabia quando começou. Não sabia o dia exato. Mas sabia que queria acordar daquele modo para sempre.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Dos fingimentos entre Ninfas e Sátiros

Ele vinha caminhando displicente, apenas queria terminar o seu dia. Acreditava que até o dia queria terminar a tanto. Venho fazendo seu caminho habitual em direção ao seu tão desejado descanso, quando precisou parar para atravessar a rua. Lembrou-se da velha lição de parar e olhar para os dois lados e assim fez. Mesmo se tratando de uma rua de sentido único, olhou para a esquerda (de onde não poderia vir nenhum carro), depois para a direita. Teria que esperar um momento mais seguro para sua travessia.
Nada fez senão aguardar passarem os carros que vinham da direta. Enquanto aguardava ouviu aquela voz que reconheceu de imediato. Quis ignorar. Ela persistiu. Olhou no sentido de confirmar, afinal seus ouvidos poderiam lhe mentir mais seus olhos não.
Com o corpo voltado para a rua e a cabeça para a direção do som procurou de onde a voz vinha. Sim, era ela. Vindo em sua direção. Com uma cara tão cansada quanto ele e o próprio dia, mas nenhum um pouco menos linda do que ele tinha na lembrança.
Cada passo dela parecia durar uma eternidade. Ele aproveitou esse tempo para pensar se queria e se devia falar com ela. Pensou por infinitos três passos.
Por fim, olhou de volta para a rua e viu que os carros tinham parado de passar. Então decidiu deixar de duvidas e foi...

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Dos motivos de partir ou de ficar

Alice resolveu que deixaria o País das Maravilhas. Olhou ao seu redor e definiu que havia cansado de tudo aquilo. Nada fazia sentido diante de sua razão. Todas aquelas sandices definidas pelo Chapeleiro por uma lógica torta já tinha ultrapassado os limites da sua paciência.

Alice não enxergava aquela felicidade. Toda aquela manifestação de alegria infundada era uma espécie de contraversão do que lhe ensinaram como real fugia do aceito. Esse paradoxo impedia que a menina vivenciasse verdadeiramente os momentos.

O Chapeleiro olhou Alice partindo de forma mais incompreensiva do que tristonha. Ele não entendia como Alice podia abrir mão daquilo tudo em função da razão de sua terra.

Para o Chapeleiro aquilo que Alice chamava de razão eram, na verdade, grilhões que a impediam de ser feliz, de sorrir e de tomar chá por dias e dias.

Devido a confusão causada pela situação repentina, o Chapeleiro não via meios, nem porquês para impedir a partida de Alice. Preferiu não se manifestar e deixá-la agir conforme sua vontade.

Por outro lado a menina, também deveras confusa, procura um apoio sobre o que fazer. Enrolar mechas de seu cabelo loiro entre os dedos e olhar para os dois lados de seu caminho não estava ajudando.

Alice olhou a sua esquerda e viu a enorme mesa de chá e na sua cabeceira o Chapeleiro com um olhar de peixe morto nada convencional na sua face. A sua direita a escada que a levava a portinha que tanto ela batalhou para passar. Alice percebeu que tinha que fazer uma escolha. Olhou para cima e viu o céu quase sem nuvens. Para baixo e viu os pés na distancia exata que lembrava que eles estavam. Sentou no segundo degrau da escada de acesso a porta de saída do País das Maravilhas, pois as duas mãos no rosto e deu-se as lagrimas...

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Falta

Estou precisando de você.

Só de te ter ao meu lado.

Ouvir uma historia, uma piada ou poesia.

Beber uma cerveja num bar bem vagabundo.

Comer uma comida nada saudável,

mas que você vai louvar por ser uma comida forte.

Queria me olhar mais alto que você

e me ver tão menor,

Escutar que sou seu ídolo enquanto eu te idolatro.

Queria novamente, olhar para o lado

e ter o carinho do avô,

a segurança do pai

e o apoio do amigo.

Estou com saudades.

Estou precisando de você.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Agora falando sério
Eu queria não cantar
A cantiga bonita
Que se acredita
Que o mal espanta

Dou um chute no lirismo
Um pega no cachorro
E um tiro no sabiá
Dou um fora no violino
Faço a mala e corro
Pra não ver a banda passar

Agora falando sério
Eu queria não mentir
Não queria enganar
Driblar, iludir
Tanto desencanto

E você que está me ouvindo
Quer saber o que está havendo
Com as flores do meu quintal?
O amor-perfeito, traindo
A sempre-viva, morrendo
E a rosa, cheirando mal

Agora falando sério
Preferia não falar
Nada que distraísse
O sono difícil
Como acalanto
Eu quero fazer silêncio
Um silêncio tão doente
Do vizinho reclamar
E chamar polícia e médico

E o síndico do meu tédio
Pedindo pra eu cantar

Agora falando sério
Eu queria não cantar
Falando sério

Agora falando sério
Eu queria não falar
Falando sério


Falando sério - Chico Buarque

sábado, 3 de abril de 2010

Pessach

Fazia um tempo, eu não bebia como fiz ontem. Acordei, no entanto, com uma ressaca moral bem maior que a alcoólica.
De orgulho ferido, abri os olhos e nada ao me redor me agradava. Meu quarto, meu “ninho” não me agradava. A comida que me deram não me agradava.
Não houve nem a tentativa de se desfazer isso tudo. Na tela do meu telefone, meu bom dia era: “Vem...” e eu li: “Como um cão, põe o rabo entre as pernas e vem”.
Respondi que não. Com um sarcasmo depreciativo a mim mesmo. “Não vou. Sou um cãozinho desobediente por vezes”.
Mergulho mais ainda na merda em saber que minha real vontade é ir correndo. Chegar balançando o rabo e sofrer tudo que disse que aconteceria. Vem a o fato que ao menos sofreria ao seu lado.
Um copo de coca e algo doce e minha ressaca vai embora. Duas ou três palavras suas, talvez apenas um sorriso, faça a outra ressaca passar.
Por mais vontade que tenha e mesmo que esteja procurando os meios e horários de ir até você, eu não vou!

quinta-feira, 25 de março de 2010

Das razões da Felicidade

Alice estava muito bem acomodada na casa da Rainha Branca. Aproveitou que a mesma não estava e aproveitou para apreciar a vista do que ela considerava o melhor ponto para se olhar todo o tabuleiro. O Chapeleiro aproximou-se e a deixou numa posição que, se ele fosse um cavalo, teria a deixado em cheque. Não se sabe ao certo qual a intenção do Chapeleiro com aquele movimento, visto que, seus movimentos são mais parecidos com os do peão do bispo.

A curiosidade de Alice, que não precisava de algo estranho para se aguçar, a despertou para o fato e para a presença do Chapeleiro. Ela tirou a atenção de sua paisagem e olhou o Chapeleiro pelo canto do olho.

Ele estava com aquele olhar que sempre desconcertava Alice. Com o rosto meio de lado e uma das sobrancelhas erguidas, o chapéu ficava inclinado para frente e sua aba cobria boa parte do olho que ele não erguia.

Alice não suportava muito daquele olhar. Ficava se sentindo estranha, errada, diferente, quando na verdade, ela é que era o normal, o certo. Soltou de imediato as palavras que o faria instantaneamente sair daquela posição: “Pergunte logo o que quer saber.” Alice tentava fazer com que não parecesse uma ordem, mas nunca conseguia. Sempre se irritava demais com aquela situação para manter algum tipo de equilíbrio.

O Chapeleiro mudou de posição no tabuleiro, de modo que agora poderia sim dar um cheque em Alice segundo seu próprio movimento. Olhou-a de frente e cuspiu um pouco, como se tivesse preparando a língua para falar bastante e soltou:

- Me diz Alice, por que para o povo do seu país que se dizem tão “racionais e certos” é tão difícil estar feliz e bem com outra pessoa?

- Como assim bem? Estou bem e do seu lado agora.

- Não Alice, não assim. Se duas pessoas se gostam, sentem vontade de estar juntas porque simplesmente não ficam juntas? Porque ficam criando dificuldades por motivos que nem mesmo estão próximos a eles?

- Porque isso não é tão simples Chapeleiro. Você não pode abdicar de tudo por outra pessoa, alem de haver outras pessoas com o qual você é importante e precisa estar bem com elas também.

O Chapeleiro fez ar de quem pensava no assunto, olhando para cima e com o dedo indicador em riste:

- Quer dizer que você não pode ser feliz porque é importante para outras pessoas que sua felicidade seja do jeito que elas queiram?

- Sim... Quer dizer não!

Alice percebeu que se meteu em uma grande confusão com seus pensamentos e começou ela a discutir consigo mesmo o fato das pessoas não conseguirem serem feliz e pronto. Realmente havia uma necessidade de ser encaixar na vida de outras que, muitas vezes, nem estavam feliz e de outros que por certo nem participariam daquilo tudo. Havia uma necessidade de se ter uma felicidade igual a de outros e até mesmo o Chapeleiro havia percebido que isso se estendia a outras situações.

- Alice, tenho plena certeza de ser feliz com meus chapéus e meu chá. Já a Lebre é feliz com o chá, mas detesta chapéus, o que não impede que sejamos felizes juntos e cientes que nossas felicidades são bem diferentes.

Alice não teve escolha, senão a de se reder novamente ao Chapeleiro. Seu país racional passava a cada dia ser bem mais louco do que o país das Maravilhas e Alice não compreendia como isso era possível.

O Chapeleiro percebeu o desconforto de Alice e tentou remediar. Pegou na bolsa um pouco de pão fresco e um frasco de geléia que guardava para momentos especiais e a ofereceu:

- Deixe isso pra lá Alice, as confusões do seu país devem ficar por lá mesmo. Acredito que já temos varias outras por aqui. Pegue um pedaço de pão e experimente essa geléia. É ótima, brotam das arvores de geléia do jardim da Rainha uma vez a cada 5 anos...

- Ei espera! – Alice o interrompeu – As geléias não brotam em arvores!

O Chapeleiro a olhou como se ela houvesse falado a maior das insanidades e chão aos seus pés se desfez...



Prefiro pensar que estou no mundo louco do Chapeleiro!

quarta-feira, 24 de março de 2010

Sentimento sem calendário

A cada dia suas duvidas passam a ser também minhas. Cada vez mais presentes, mais constantes. Tenho minhas plenas certezas em todas elas, mas são meras certezas minhas. Não vão modificar o mundo ao nosso redor, modificam apenas o meu.
Olho para os lados e tudo que fica contra mim, contra nos, passa para o exílio, se torna contravenção. Já aos seus olhos nos comentemos o crime de ser invejado pelos outros. Quantos dos que nos apontam não estão, na verdade, desejando o que temos?
Toda via, não se vence uma guerra sozinho e assim vou absorvendo todas as suas duvidas. Eu, senhor de minhas certezas, me afogo num mar de duvidas sobre aquilo que tenho certeza de querer.
Assim, suas duvidas do “se” passam a ser as minhas do “porque”. Não me dou ao luxo de duvidar dos meus desejos. Ninguém melhor do que eu para defini-los, viabiliza-los e acreditar em seus avanços. Nisso suas duvidas, passam a querer ser novas certezas minhas. “Não te satisfaço”, “Não te mereço”, “Não sou suficiente”, “Não posso te ter”...
Olho o caminho a nossa frente e me sinto forte e capaz de superar os obstáculos. Acredito ter força até para te impulsionar contra alguns. Mas não posso te levar por todo caminho...
Olho para você e só consigo enxergar o que quero. Olho nos seus olhos e só vejo o que eu não sou, o que não posso ser. Sinto-me incapaz. Por não poder alterar o tempo, inverter datas, trocar os anos...
Sei que quero você comigo, mas você eu já não sei o que quer.

sexta-feira, 5 de março de 2010

http://algidanicotina.blogspot.com/

"...Ao mundo, deixo um apelo: nunca abandone, jamais, alguém por quais quer simplicidades ou materiais. NUNCA subestime a capacidade que um grão de areia tem de entristecer uma pessoa.
Corações são fracos. Podem ser de pedras, de carne, de ferro, bombear muito ou pouco sangue, ser saudável ou doente, mas ele não se chamaria Coração se não fosse destrutível."

Esse garoto tem talento!!!

quinta-feira, 4 de março de 2010

Pensamento de um passado não tão distante

Nos nunca vamos nos casar...
Felicidade não esta no meu destino.
Você nunca vai ser minha
assim como qualquer uma que venha a ter
tido qualquer tipo de bom sentimento.
Isto tudo não é para eu viver.
Eu tive só para amprender a descrever
a fotografar...
Mas não para mim. Não hoje. Não para o futuro.

Eu cansei de esperar por isso.
Eu cansei de procurar por isso.
To bem mais feliz entorpecido pelo conforto
de que isso não é para mim.
Quem disse que conformismo não é bom?
Ele é otimo e esta muito bom olhar a vida
por seus olhos.

Não espero mais minha hora.
Não espero mais meu alguem.
Por que hoje sei que eles não vão chegar.

O que restou para mim foi
a estrada e os passos que
ela me permitir percorrer
e os que ela me abrigar.

Cansei disso tudo.
Agora eu sigo frente.
Parei de olhar para trás
e desisti de olhar para frente...

Chuvas

Volta a chover nas terras inférteis e longínquas do Reinado.


Previsão dos metereologistas:

Apenas uma nuvem passageira que pode vir a retornar. Nada de frente fria, nem outros fenômenos do tempo.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Enquanto eu tenho amor, desejo e paixão pra lhe dar, tudo que você quer são uns poucos carinhos e seus caprichos realizados.

Enquanto minhas saudades são imensas e alguns de meus momentos insatisfatórios sem sua presença, você está ocupado demais para perceber a minha ausência.

Enquanto eu fico pensando em uma maneira de melhorar o que temos, você crê que tudo que temos é muito mais que o suficiente para nós.

Enquanto na minha cabeça rolam dúvidas se nosso presente vai valer um bom futuro, você simplesmente está certo de que o importante é apenas o hoje.

Enquanto eu espero você chegar sobressaltado sem saber se você vem, você esta em qualquer lugar sabendo, seja qual for o momento, eu estarei esperando.

Então...

... passamos a não ter sintonia.

Eu tenho medos e dúvidas, enquanto você não nota.

Eu não entendo algumas de suas atitudes, sobre outras gostaria de questionar, enquanto você não percebe minha inquietação.

Eu olho o seu rosto e guardo cada expressão para os momentos de saudade, enquanto você tem o olhar perdido no horizonte, vendo tantas outras coisas mais interessantes.

Eu vou me punindo por querer de mais ou por não saber esperar, enquanto você acha que não temos culpa de absolutamente nada.

Eu vou tentando, de forma sutil, dar sinais de alerta sobre a situação, enquanto você vê tudo passar pelos seus olhos como um filme, sem nada captar.

Eu fico sem saber o que fazer e me sinto sem escolhas, enquanto você acredita que temos todo o tempo do mundo, e por isso não precisamos fazer nada...

...e tudo entre nós vai ficando cheio de pausas, suspensões,... (reticências) e já não posso dizer, que só pelo meu querer, que tudo vai dar certo.

(Autor desconhecido)

A algum tempo Nathalia me enviou esse texto, só hoje consegui entender na integra.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Carnaval 2010

Eita menino! Num que o carnaval 2010 veio e já se foi.

Com direito a tudo que um bom carnaval deve ter. As prefeituras estão de parabéns. Mais uma vez suas programações que não fazem sentido nenhum fizeram a animação do povo mostrando que o carnaval de Olinda e Recife é mesmo do povo e feito pelo povo. Não importa o que esteja tocando agente faz festa de jeito e faz bem feito.

A Grande Recife este ano esta de parabéns. A pesar da mal vontade dos motoristas de ônibus, compreensiva já que estão trabalhando pleno carnaval, houve transporte para todo mundo fazer a festa. Com organização melhor do que todos os carnavais anteriores e em quantidade para diminuir os amontoados de foliões. Pouquíssimos blocos da “Lata de Sardinha”.

E que bom que nem tudo são flores para agente também poder tirar uma com cara de alguém num é... Afinal de contas é carnaval.

Prefeito João da Costa (tinha até esquecido que o prefeito era você e já ia culpar o João anterior) aquela área vip ainda continua lá cara? Pleno Marco Zero. Ícone da integração e Multiculturalidade do nosso carnaval. Eu sei que os sobrinhos de seu povo também querem brincar o carnaval, mas deixe eles, ao menos no carnaval, no meio da mundiça mesmo. Serve até para renovar os anticorpos sabia?

Já ao povo de Olinda. Por favor, no próximo orçamento participativo votem pela climatização das ladeiras da cidade alta. O que salvou boa parte dos foliões de assarem por lá foi a boa vontade dos moradores com seus maravilhosos mangueirões. Se bem que, com ar livre o cheiro de xixi já estava insuportável imagina então se fosse fechado.

Ai galera nessa parte a culpa nossa. Enquanto as baianas lavavam as escadarias das igrejas com perfume agente lavava as ladeiras com mijo. Sacanagem!

Por outro lado, devemos também receber nossas láureas. A muito não se via um carnaval tão tranqüilo. Poucas brigas. Pouca violência. Ta vendo seu João! A mundiça ta aprendendo a se comportar! Libera a área vip.

E digo com convicção que essa conquista é nossa. Já que a policia, mais uma vez, fez vergonha. Ai autoridade se pede Licença para passar no meio do povo com a boca ou com um toque no ombro se ela não ouvir. Cassetete serve para outra coisa que esqueceram de lhe explicar e como acho que minha mãe vai levar isso aqui eu não vou escrever. Toda via, fico relaxado afinal aqueles deviam estar na academia ainda. Fica a esperança de que eles aprendam ou sejam reprovados de vez.

Falando no que fica... Fica agora a realidade e o ano finalmente começa no nosso país. Com direito a intervalo no meio do ano para a copa e o rodízio de pizza na eleição. Acredito que esse ano nem terá pizza, vai ser é de panetone (um abraço Arruda).

Mas ficam também os desejos... O desejo que alegria do carnaval nos contagie durante todo o ano. Que os amores que nasceram antes do carnaval o ultrapassem e os que nasceram no carnaval vinguem. Agora que já passou o desejo de que o carnaval passasse, afinal agente precisa dormir também, nasce o de que o próximo venha.

Já em mim fica o desejo de que minhas unha dos pés não caiam depois de tanto ser pisoteadas e mijadas.

Abraços a todos...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Do teu riso das noites

Do teu calor nos abraços

Da tua mão que acaricia

Do teu olhar de contemplação

Do teu sono displicente

Do teu sorriso de bom dia.



É disso que me faço.

(
Evelyn Manrique)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Nem só por hoje

Hoje eu rui as unhas novamente. Havia anos que acha que tinha me livrado desse vicio, dessa fuga. Então hoje ele volta e traz consigo uma serie de fantasmas que eu jurava ter enterrado com meus últimos pedaços de unhas arrancados a dente.

Hoje eu não vi presente para o que desejo para o futuro. Me senti incapaz e lento. Ouvi um monte de musica sem uma lógica especifica só para disfarçar as musicas deprimidas e nostálgicas que estava com vontade de ouvir.

Hoje eu li a Bíblia, não tive coragem de falar com as pessoas de que gosto. Tive sono bem antes do habitual, mesmo querendo ficar acordado até mais tarde. Não tive fome, nem vontades, nem desejos, nem vaidades.

Hoje eu acordei para desejar que hoje passasse, que amanha passasse e que depois de amanha passasse.

Hoje foi menos um dia.

Da futura despedida das Ninfas e Sátiros

Ele se viu novamente olhando nos olhos dela. Aquilo lhe dava um conforto diferente de tudo que ele já havia experimentado. Já passará a ser comum, ele olhar os olhos dela e ficar estatelado por alguns minutos, preso a essa ação aparentemente tão simples. Os olhos dela tinham um brilho especial que tinham o poder de levá-lo ao nirvana questão de segundos. A apreciação daquele olhar já beirava se tornar um vicio para ele.

Ele agora o fazia novamente. Olhando os olhos dela ele desenhou um sorriso no próprio rosto. Não se sabe se por timidez ou curiosidade ela perguntou o motivo do sorriso dele. Ele não soube responder. Era de sorrir tão pouco, mas ela conseguiu tirar dele todos os sorrisos que ele a muito teimava em esconder.

Ele acabou também ficando curioso sobre este poder que ela tinha sobre ele. Passou a dedicar sua atenção a esse pensamento. Reviveu toda a estória deles juntos. Tirou uma serie de conclusões. Desfez o sorriso, mas não deixou de olhar para ela.

- Queria que quando você for me deixar, faça de uma vez só. Não fique protelando, nem esperando um bom momento, nem me chame querendo conversar. Só faça e pronto. Como um golpe de misericórdia.

- Quando eu fizer? Porque você acha que vou fazer isso?

- Vai fazer eu sei.

Ela o abraçou, aquele aperto conseguiu segurar, alem de seus braços, as suas lagrimas. Ela fez uma serie de juras e planos onde os dois estariam juntos por muito tempo. Ele se satisfez, ao menos no momento.

Satisfez-se, mas não se conformou. Olhou seus dedos, uma espécie de tic que fazia sempre estava abalado emocionalmente. Fingiu que acreditou e desfez a tristeza do rosto.

Passou a partir daquele dia a agir de forma diferente, mais intensa. Se iria acabar assim tão rápido a única coisa que lhe cabia era aproveitar. Então que se fosse aproveitado ao maximo.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Das pessoas, fabricas e geléias

- Ora Alice, como pode você pensar assim? - Beirou o ceticismo, o modo como o Chapeleiro recebeu aquele pensamento. Ainda mais vindo de Alice. Como poderia ela, que se gabava tanto de sua razão, se desprover e distanciar tanto dela em uma única frase?

Alice era um ser longe de tudo que o Chapeleiro conhecia por normal. Falava como se sua língua nunca cansasse, era contra tudo que ele falava dizendo não fazer sentido de onde ela vinha. Lembrava que certa vez Alice disse a ele que “Estava muito contente de ter os pés no chão”. Claro que o Chapeleiro não entendeu, pois por mais que seus pés teimassem em sempre estar no chão, ele adorava os ter para o ar.

Agora, Alice o surpreendera mais do que jamais havia feito. Com uma certeza quase mística ela definiu toda aquela situação que se mostrava absurdo até mesmo para o absurdo. Não havia desculpa para tanto, nenhum fumo de lagarta ou passagem para outros lados de espelho poderia dar sentido a toda aquela falação. Por mais que tentasse o Chapeleiro não compreendia.

- Por que assim é de onde eu venho Chapeleiro. Não existem arvores que brotam geléia para o pão do chá. Assim como não existe arvores que brotam qualquer tipo de geléia. As geléias não vêm de outro lugar se não das fabricas. – O Chapeleiro estava estarrecido e pensava será então que de onde ela vem as pessoas também vêm de fabricas? Ele pensou revirando os olhos e preferiu não perguntar. Ficou com medo de que Alice, sua grande amiga, não fosse uma pessoa de verdade e sim algum tipo de enlatado que saiu de uma fabrica cuspidora de fumaça e caminhões.

Preferiu então que as coisas voltassem a ser como eram antes desta conversa. Então fechou os olhos e a esqueceu. Quando os abriu viu Alice de pé na sua posição de birra que ele já havia se acostumado a ver. Ele foi a até a mesa serviu um pouco de chá para e si e para ela. A entregou o chá oferecendo também fatias de pão com uma ótima geléia que brotavam nas arvores de geléia do jardim da Rainha. Alice preferiu aceitar a geléia a criar uma nova confusão. Realmente ela tinha um gosto todo especial.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Dos reencontros das Ninfas e Sátiras

Ambos tiveram a mesma idéia. Talvez por isso tenha dado tão errado, ou tão certo (depende do ponto de vista de ler). Marcaram de ir com seus novos companheiros a um lugar que nunca haviam indo quando juntos. Um restaurante que ele e ela juntos nunca tinham ido. Ambos tinham a certeza que o outro não se agradava do tipo de local que escolheram para ir.

Quão foi a surpresa quando ela, ao olhar o salão procurando uma boa mesa, o viu muito bem sentado num canto. Tentou de imediato encontrar uma mesa onde ele não pudesse vê-la, mas que ela pudesse vê-lo. Não encontrou. Pior ainda, ele estava num lugar estratégico demais e qualquer lugar em que ela sentasse seria vista. Escolheu um lugar um tanto distante então.

Somente quando bem sentada e mais calma com a situação foi que ela percebeu que não era a única acompanhada naquela noite.

Já ele, percebeu a presença dela no momento em que ela sentava. Notou, antes de qualquer coisa, que seu acompanhante sentou antes dela e já o conceituou como deselegante. Sé então observou ela, notou um certo ar de desconcerto, o que a deixou ainda mais bonita. Procurou ignorar esse fato se dizendo estar acompanhado de uma mulher linda (o que não era mentira). Sempre tivera bom gosto e sorte com as mulheres, o que possibilitava mulheres com beleza acima da media em sua companhia.

Com esse pensamento, lembrou que perdera a atenção a sua companhia que logo fez questão de mostrar que estava ali e percebendo quase tudo.

- Desculpe. Viajei um pouco nos meus pensamentos.

- Na verdade você viajou naquela mulher que acabou de chegar. Alguma conhecida?

- Sim. Uma amiga.

- Amiga ou namorada?

- Namorada no passado. Hoje mal podemos dizer que somos amigos.

- Espero que esse passado esta bem distante agora.

- Esta! – Disse isso olhando pegando em sua mal, olhar fixo nos olhos e terminou com um beijo nos lábios. Sabia que isso iria reforçar a certeza do que disse.

Do outro lado do salão, ela o via beijar os lábios de outra. Aquilo lhe pesou o peito bem mais do que ela esperava. Começou a reparar neles. Viu como ele parecia bem. Corado, sorridente, alem de não ter perdido o ar altivo que sempre carregou. Acompanhado de uma loira de rosto bem afilado, corpo escultural e muito bem vestida. Seu acompanhante notou sua mudança de estado de espírito e seus olhares a outra direção. Olhou para o mesmo lado e reconheceu ele.

- Seu ex-namorado?

- Acho que é. Não to reconhecendo bem. – Mentiu.

- Acho que é ele sim. Bem parecido. Esta de namorada nova?

- Aparentemente.

- Bem bonita ela...

- Aquela tinta no cabelo deve ter corroído tudo seu cérebro já

- Ciúmes?

- Claro que não. Viemos aqui para outra coisa não?

- Também acho. Viemos fazer o que eles estão terminando.

O garçom aproximou-se com o envelope de couro contendo o ticket com a despesa do jantar e troco do pagamento. Ele deixou uma das notas no envelope como gorjeta pelo bom serviço do garçom, levantou e ajudou sua companhia a sair da mesa. Deu-lhe o braço e a guiou para saída pelo caminho mais distante dela.

- Porque vamos por aqui?

- Esse é o caminho da saída.

- Você não vai falar com sua “amiga”?

Nessa hora ele teve certeza da relação que fazem das mulheres e do demônio.

- Não queria atrapalhá-la, mas já que você não se incomoda.

- Até insisto.

Foram os dois na direção da mesa em que ela estava sentada. O coração dele prestes a sair pela boca. Quando ela notou ele vindo em sua direção sentou que o peito iria estourar naquele mesmo instante.

Chegou manso, com um sorriso – falso – e muitos bons modos.

- Boa noite. – Ela se levantou, seu acompanhante permaneceu sentado. Ele olhou como desaprovação. Ela percebeu e fez sinal para o acompanhante se levantar. O que ele fez, demonstrando má vontade. Estendeu a mal e lhe devolve a saudação.

- Boa Noite. Você é XXXXX, certo?

- Exato, mas eu não te conheço.

- Desculpa XXXXX, esse é XXXXXX meu noivo. – Ela não percebeu que havia apresentado o noivo pelo apelido.

- XXXXXX? Com um nome desses, você foi uma gravidez desejada? – Todos riram para que aquilo realmente perecesse uma piada.

- Na verdade fui, esse é apenas um apelido meu nome é...

- Esqueça o nome o apelido nos torna ainda mais íntimos. Essa é XXXXXXX minha namorada.

Ela se apresentou a namorada dele ambas se saudaram falsamente e trocaram elogios sobre cabelos, roupas e sapatos. Ele perguntou sobre o bem estar dela, deu um pouco noticias de sua vida e despediu-se. Foi embora sem olhar para trás. Ela demorou um pouco para sentar, acompanhando sua saída de braços dados com outra, ao retornar a realidade de sua mesa seu noivo já estava sentado mesmo com ela de pé.

A noite transcorreu para os dois. Ele escutou alguns gracejos de ciúmes de sua namorada. Ela escutou criticas do seu noivo. Nada insuportável ou novo para qualquer um dos dois.

Durante a madrugada ele sonhou se desculpando com ela por estar com outra. Acordou nervoso, olhou para o lado da cama e não viu a namorada. Sentou-se na cama e a viu no banheiro. Esperou que ela viesse para cama, lhe pediu um abraço, fez algumas juras e a convidou para comprar alianças com ela no outro dia após o trabalho.

Por sua vez ela também despertou na madrugada com um sonho onde ele e seu noivo duelavam. Ele bem produzido em sua armadura e brilhante de cavaleiro e o noivo com os trajes grosseiros de bárbaro. Amanheceu no outro dia e foi direto a uma livraria. Durante a noite o noivo foi presenteado com um livro de boas maneiras.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Permição

Deixa que eu me veja na luz teus olhos.

Deixa meu abraço esquentar a tua pele.

Deixa que o que pareça não seja.

Deixa ser o que se deseja ser.

Deixa que as mão se afaguem, que os lábios se beijem.

Deixa que os sorrisos se mostrem e as lagrimas rolem.

Deixa que a vida seja vivida.

Deixa o passado no passado e futuro no futuro.

Deixa estar.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Bacurau

Ônibus são verdadeiros templos da filosofia moderna. Os que rodam pela madrugada chegam a ser sagrados tamanho seu potencial de produzir pensamentos e questionamentos numa alma.

Foi num ônibus e em plena madrugada que resolvi deixar minha solidão um pouco mais matemática. Cheguei a conclusão de que demoraria cerca de uma semana pra que eu fizesse falta significativa a alguém caso desaparecesse do nada. Claro que alguém me notaria ausência antes disso, no entanto demoraria mais ou menos esse tempo para que se tornasse algo serio na cabeça de alguém.

Ainda estenderia isso a um tanto, caso minha barraca de camping não fosse encontrada no meu quarto, esse tempo aumentaria para umas três semanas aproximadamente.

Não tenho para quem dizer onde vou, nem para avisar que cheguei. Agente passa toda adolescência querendo que isso aconteça e quando acontece... bem, como quase todas as coisas que queremos para quando ficarmos adultos, não é tão bom assim.

Você não ter para quem voltar, ou a quem dizer como esta, ou alguém ao menos para se preocupar é um tanto... solitário. Dá um frio, umas sensações estranhas diante dos espelhos.

Sei o quanto aquele Narciso interno é importante para cada um de nos, e por mais que ninguém mais divida da opinião dele, ele consegue nos convencer com tanta facilidade. Se ele diz que estamos lindos, elegantes, gordos ou feios, não há ninguém no mundo que nos convença do contrario. Imagine então quando ele te olha, olha e olha mais, foca bem nos fundos dos seus olhos e diz:

- Você esta sozinho!

Me diz quem vai dizer contrario? Quem vai dizer, de um modo que você passe a saber que não esta?

Meu Narciso me diz que apesar de jovem, bonito e inteligente estou sozinho. Meu Dom Quixote me diz que os gigantes são moinhos de vento. As princesas são todas madrastas.

A vida então se resume a um conto de fadas ao avesso. Um conto de fatos. Uma imagem preta e branca, fria e sem som. Onde você sozinho não possuem as capacidades de colorir, aquecer, nem de lhe dar uma boa trilha sonora.

A muito me desiludir e não procuro mais; amor, paixão, fidelidade, ou qualquer destes sentimentos fantasiosos e alegóricos. Procuro apenas companhia. Alguém que esteja do meu lado mesmo quando eu não quiser ninguém perto de mim. Que sinta pesar nos despedidas. Que pense em me dizer se ganhar um prémio, se tropeçar na rua e ate mesmo se não fizer nada e queira ouvir as minhas futilidades diárias mesmo que não esteja nem ai pra elas.

Eu quero a sorte de amor tranqüilo com sabor de fruta mordida.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Das falsas verdades dos Satiros e Ninfas

Ele estava em seu escritório, perdido entre dados, tabelas, e-mails e relatórios. Concentração máxima. Revelada pelo modo de apertar os lábios e de erguer as sobrancelhas sob os óculos e quebrada pelo toque do telefone em sua mesa.

- Sim.

- Bom dia Senhor XXXXX. A Senhora XXX XXXXXXXX, esta aqui disse que marcou com o senhor.

- Comigo?

- Sim. Ela é XXXXXXX da empresa XXXXX.

- Certo. Acho que foi marcado sim. Mande entrar.

Seria mais uma conversa inútil que tomaria seu tempo, pensou ele, mas um pouco de descanso poderia fazer com que ele pensasse melhor ao voltar ao que estava fazendo. Ela entrou na sala e ele nem se quer tirou os olhos da tela de seu computador. Ela estava sorrindo aquele seu sorriso maravilhoso. Ele nem se quer percebeu quem era, respondeu a seu bom dia e pediu que ela sentasse. Ela percebeu que não foi reconhecida.

- Oi! Não lembra mais de mim?

Ele finalmente a olhou. O coração veio a boca, mas claro que ele não deixaria transparecer.

- Ah! É você. Oi.

- Como assim “oi”? É assim que você trata suas visitas de negocio?

- Você não venho aqui a negócios.

- Como sabe?

- Tenho certeza!

- Você continua tão frio, seco...

- Posso ser pior...

Alguns minutos de silencio e olhares. Ela pensava em como ele não havia mudado nada no seu modo de falar e de agir e quase nada na aparência. Ele só pensava como ela tinha conseguido ficar ainda mais linda. Ele quebrou o silencio.

- Não estou muito disposto a perder tempo. Qual o assunto de negócios que você quer falar?

- Você não disse que tinha certeza que eu não falaria de negócios?

- Achei que ao menos você poderia mudar de opinião.

- E por que você não pode?

- Olha! Vamos parar de palhaçada! Você pode, por favor, dizer o que quer aqui? To com pouco tempo pra desperdiçar.

- Desperdiçar? Eu sou desperdício de tempo pra você? Mesmo depois de...

- Depois de que??? O que você quer que eu faça??? Depois de anos que você me deixou, reaparece no meu trabalho e quer que eu a receba de braços abertos como se nada tivesse acontecido?

O que eu devo fazer te chamar de meu amor como se você não tivesse me deixado, ou te tratar de forma cortes como bons amigos como se nunca tivéssemos tido nada?

Olha na minha cara e diz!!!

Ela ergueu a cabeça, seus olhos brilhavam ainda mais agora que estavam marejados de lagrimas que se esforçavam para rolar contra a vontade dela.

- Achei apenas que seria diferente. Tudo não passou pra você? Eu não passei pra você?

- Você me deixou! Eu tive que fazer você passar pra mim. Sim, eu consegui. Mas não tenho obrigação de achar bom te ter aqui. Vivi muito bem a minha vida sem você até hoje.

- Desculpa! Não queria atrapalhar.

- Como você consegue ser cínica a suficiente pra me pedir desculpa por esta aqui hoje depois de tudo?

- Não é cinismo. Apenas achei que...

- Você achou? Você acha que tem direito de achar alguma coisa?

- Calma XXXXXXX?

Ela percebeu tarde demais que o havia chamado da forma que fazia no passado. Ele também congelou. Não podia mostrar a ela que tinha gostado daquilo.

- Desculpa me exaltei.

- Não, eu que peço desculpa, não tinha o direito de vir aqui.

- Realmente não tinha.

- Estou indo embora então.

- Me deixe abrir a porta pra você.

- Quer mesmo que eu vá?

Ele se aproximou dela, olhou bem dentro dos seus olhos. Lembrou da primeira declaração de amor que fez a ela, citando que se maravilhava quando se via no brilho dos olhos dela. Não deixou a lembrança transparecer no rosto. As mãos por outro lado tremiam involuntariamente. Ele percebeu que era mais forte do pensava e mais fraco do que desejava naquele momento. Respirou fundo, se concentrou e disse da forma mais convincente que conseguiu:

- Sim! Eu quero.

- Quer o que?

- Eu quero que você vá embora. Não só da minha sala como da minha vida. A muito você não faz parte dela e gostaria que continuasse assim.

- Você, insatisfeito de me esquecer no coração, também quer me esquecer aqui.

Ela falou apontando a mão para a testa dele. Ele fechou os olhos ao seu toque. A mão dela desceu de forma carinhosa por suas bochechas. Cada pêlo do corpo deles se arrepiou. Ela se aproximou e quando seus lábios quase se tocaram ele abriu os olhos segurou nos seus braços e a afastou de si.

- Não!!! Passei anos para que me curar de você.

- Curar? Por acaso sou alguma doença?

- Foi! Foi uma doença pra mim. Não vou me deixar ser infectado novamente.

Ele deu as costa e estendeu o braço apontando a porta. Ela se levantou da cadeira e deu três passou em direção a porta, voltou correndo e o abraço pelas costas. Sua boca foi até bem perto do ouvido dele e ela soltou num sussurro.

- Foi muito difícil pra mim também. Perdi noites e noites em meio a arrependimentos e suplicas para desfazer tudo que tinha feito. Nada tinha o sabor que sentia quando estávamos juntos. Procurei substitui você em tudo que você me negou mas não foi o suficiente. Tentava juntar forças para tentar falar com você, mas você já me afastava no primeiro momento. Senti tanta falta de estar assim perto de você.

Ele não deu uma só palavra. Não fez um só gesto. Por dentro seu corpo incendiava. A quanto tempo não se sentia assim nem lembrava. Lembrava apenas que tinha sido com ela.

Tentou seguir a razão para afastá-la novamente e fazer com que ela saísse. Não conseguiu. Tentou falar qualquer coisa racional para dizer que não se sensibilizava com o que ela dizia. Também não conseguiu.

Virou o corpo lentamente e sem abrir os olhos a abraçou de volta. Sentiu seu cheiro, a textura do cabelo, a delicadeza da pele.

Ergueu um pouco a cabeça, olhou novamente nos olhos dela. Eram quatro olhos chorando na sala agora. Encostou suavemente sua testa na dela, depois o nariz, seguido dos lábios. Dois beijos leves nos lábios foram seguidos pela mão dele na nuca dela e um beijo digno dos filmes de Hollywood.

Depois de minutos de tato e paladar, os dois se separam com a respiração ofegante. Ele se recompôs primeiro.

- Desculpa. Isso não devia ter acontecido.

- Devia e aconteceu. Não me arrependo e gostei.

- Não pode ser assim. Não é assim.

- Você esta certo. Eu vou embora. Agora vou mesmo.

O rosto dele voltou ao formato de estatua de pedra assim como quando ela entrou na sala.

- Quero lhe pedir algo.

- Peça.

- Vá embora, mas vá de vez. Não volte mais aqui, nem em lugar nenhum da minha vida. Somos você e eu agora, não existe mais nós. Finja que isso não aconteceu.

- Certo. Eu vou.

Ela ajeitou as roupas e os cabelos, respirou fundo, deu as costas e saiu tendo a certeza que voltaria e que seria em breve. Mesmo tendo prometido a ele, ela voltaria. Ele ficou olhando ela atravessar a porta pedindo a todos os deuses para que ela voltasse e dissesse que tinha vindo para ficar e ficar para sempre mesmo se ele não quisesse.

A porta demorou uma eternidade para se fechar por completo. Ele ajeitou o paletó e a posição dos óculos sobre o rosto. Levou a mão a nuca e coçou algumas vezes. Pendeu um pouco a cabeça pra esquerda pensando em tudo que tinha acabado de acontecer. Coçou a testa um pouco. Respirou fundo e voltou a sentar frente ao computador e aos papeis. Abriu o arquivo que lia antes do telefone tocar, apertou os lábios e ergueu as sobrancelhas.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Dos desencontros dos Satiros e Ninfas

...

Ela desviou o olhar do dele e perguntou:

- Onde você estava esse tempo todo?

Um sorriso se mostrou em ambos os lados da boca dele. Uma raridade entre seus sorrisos falsos de apenas um lado da boca. Em meio a esse sorriso ele respondeu:

- Te procurando!

Ainda com o olhar no alem ela rebate:

- E porque demorou tanto?

O sorriso se desfez num olhar de duvida com uma das sobrancelhas erguida. Os segundos de duvida pareceram horas e só tiveram fim quando se transfiguraram em uma pergunta:

- Foi tanto assim, que não posso te ter mais?

Ela voltou o olhar para ele. Seus olhos redondos e brilhantes estavam apertados e foscos, exceto pela lagrima que surgia no cantinho de um deles.

Ela beijou os lábios dele, recuou e tragou demoradamente o cigarro que tinha entre os dedos. Ele jogou seu tronco contra as costas da cadeira em que estava sentado, tomou um gole rápido em copo descartável que continha um pouco de cerveja. Como ela estava quente...

sábado, 28 de novembro de 2009

Shāh Māt

Eram 03:47 quando resolvi isso. 03:47 da madrugada. Nem sei o que estava fazendo acordado aquela hora, levando em consideração minhas obrigações no dia seguinte. O tempo gasto em apenas um pensamento que me atormentou nos últimos meses.

A defesa primaria, como de praxe, foi a fuga. Não pensar naquilo, pensar em outras coisas, ler, ouvir musica e esconder tudo que trouxe a tona aquele desejo. Ficava tudo muito tranqüilo. Até que batinha um nordeste mais frio, ou sudoeste mais quente e tudo vinha a tona de uma só vez.

Essa foi a rotina de alguns muitos meses recentes. Toda via, as 03:47 daquela madrugada resolvi mudar a posição de uma torre, avançar uns peões, cruzar os bispos e retroceder os cavalos. Qual minha surpresa quando vi a posição em que me encontrava. Rainha branca em posição desfavorável, apenas com as opções de sair do jogo ou abrir espaço para Xeque Mate contra seu Rei. Alem de dois peões meus a uma casa de se tornarem novas Rainhas Pretas.

Um lance para destruir a Rainha e outro para o cheque, mas para que a pressa? Acreditei que deveria sair tirando peça por peça do meu campo rival. Aproveitar cada alegria, cada ferroada ao rival. Devorando peça por peça sem desmanchar a armadilha que rendia a vitória certa.

Pus-me a me banquetear no desespero que surgia do outro lado do tabuleiro até o momento em que a compaixão se fez necessária. Um lance e o fim do jogo. Um lance para a vitória. Olhei bem fundo nos olhos do meu rival e disse solene:


- Fim do Jogo! Temos um empate.


Li a mistura de desespero e atordoamento em seu rosto, como se ele fosse um letreiro luminoso piscando em néon. Então venho a sensação:


- Venci.


Um minuto depois olhei para o relógio. Me dando as boas vindas ao jogo novo. As 03:47 daquela madrugada me dei conta do fim daquele jogo com o empate mais vitorioso que tive na historia. Respirei fundo e preparei o tabuleiro para o novo jogo e percebi a necessidade de outros adversários e aliados.

Munido de tudo que preciso para ir em frente, eu fui. O mundo me esperava de braços abertos, como quem sentia um falta enorme de mim. Fiz o primeiro movimento das peças e sensação do novo jogo me tomou as pontas dos dedos.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Depois de Março

Em algum momento de dois anos para cá eu envelheci. Não sei o dia exato, sei que foi nesse período.
Certa manhã acordei e me olhei no espelho, continuava com meus vinte e poucos anos e minha cara de quem tem menos de dezoito. Penteei-me com se tivesse quinze e sai para o mundo. Então comecei a perceber que as coisas ficaram mais estremas. O certo parecia muito certo. O errado muito errado.
Com o passar dos dias, meu sorriso, já raro naqueles tempos, foi aparecendo menos até se tornar um simples sobre erguer de um dos cantos da boca. Geralmente o esquerdo (por ser o lado coração?).
Olhava-me e olhava, mas nada tinha mudado fisicamente. Nenhuma ruga nova, nem um fio de cabelo branco. No entanto, a velhice era imperativa nas minhas ações e pensamentos.
Procurei esconder tudo isso na mascara de menino que já usava. Falhei! Dia-a-dia a faceta de menino-velho era mais exposta. Olhos ainda mais foscos e frios. Decisões mais definitivas e pensadas cada vez mais rápido. Menos dó, receio e duvidas. Mais certezas e determinações.
Penso se posso algum dia ir a resgate da juventude e infância que se perderam nesses dias. Penso, mas não ajo para que possa resgatá-las. Penso e só existo.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O que é um copo de paixão para um embriagado de amor?


O coração é um cofre, um baú e como tal gosta de estar cheio, busca por ser preenchido. Mesmo com seu fecho danificado, com a porta emperrada, não é esforço para um coração se abrir para um novo sentimento. A razão condena, a mente distancia, porem nenhum outro músculo é tão forte.

Por ser músculo o coração segue instintos, mas é suficiente sábio, sábio o bastante para saber que dor de amor não se cura com ódio, rancor ou medo, mas sim com prazer de amor. A sabedoria do coração nos diz que não se perde o amor, se perde um amante, e que na próxima troca de olhares brilhantes, nas próximas risadas, nas duplas de cantores de “na-na-ná”, vamos pensar que ele esta sendo preenchido novamente, mas que nada, isso é prova de que ele já se preencheu.

Amor é como gás, a menor quantidade que seja ocupa todo o espaço que o concederem. Ele vai se expandindo, esticando, mas se recusa a contrair para dar entrada a outros gases iguais a ele. Porem existem gases diferentes, existem amores diferentes, que se unirão para formar um novo gás ou não se misturarão devido a densidades distintas, todavia convivem em plena harmonia.

O coração bate para deixar o amor em movimento e o corpo usa isso em beneficio próprio no transporte do sangue. É como a manivela da panela de pipoca, tem que se fazer todo o milho estourar e temos, para isso, que trazer alguns grãos para perto do calor.

Amor nunca é mais amor, nem menos amor; é amor e ponto. Ou é, ou não é. O brilho pode até entrar mais fundo nos olhos, porem sempre enquanto houver amor ele estará lá.